quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pitacos para o Oscar 2014



Há pouco menos de um mês para a 86ª cerimônia de entrega do Oscar, as apostas para cada categoria vão ficando mais afuniladas à medida que outros prêmios, as chamadas prévias, como DGA awards, do sindicato dos diretores, WGA Awards, do sindicato dos roteiristas, SAG Awards, do sindicato dos atores e claro, o Globo de Ouro, vão confirmando alguns favoritos.



É o caso de Alfonso Cuarón, diretor de “Gravidade”, um dos três fortes candidatos ao prêmio de melhor filme. Tendo vencido o prêmio do sindicato de diretores e o Globo de Ouro, é muito provável que ele receberá também o Oscar, como Melhor Diretor. Em “Gravidade”, ele consegue utilizar uma alegoria bastante visual e atraente para contar uma história de luta pela vida. Apesar do pouco diálogo (com exceção do início, em que George Clooney fala mais que Sandra Bullock o filme todo) o roteiro enxuto torna o longa bastante dinâmico.



Quem mais ameaça a vitória de Cuarón é David O. Russel, diretor de “Trapaça”, outra aposta para melhor filme do ano, escolhido pelo Globo de Ouro como melhor filme de Comédia ou Musical. Pode se dizer que o filme é um episódio especial do seriado inglês “Hustle” (a coincidência do nome não é mera coincidência) com toques de Robert Altman. Alguns vêm mais similaridade com Martin Scorsese, mas enfim. Não parece ser o tipo de filme que cresce ao longo dos anos. O grande trunfo, no entanto é o elenco, eleito o melhor do ano pelo SAG. Todos os atores principais foram indicados, merecidamente. Ambas atrizes indicadas venceram o Globo de Ouro como Atriz e Atriz Coadjuvante em Comédia ou Musical. Entretanto, Melhor Atriz no Oscar, Amy Adams tem poucas chances contra Cate Blanchet, da qual falarei mais adiante. Porém, ela está mais uma vez perfeita, na pele de uma sedutora golpista com alguns conflitos de personalidade. Já Jennifer Lawrence pode ser contemplada pela segunda vez seguida (ganhou como Melhor Atriz ano passado por “O lado bom da vida”). Lawrence, aqui como coadjuvante, brilha em cada cena que aparece, como uma dona de casa cafona e temperamental. Poderia ser um personagem irritante, mas ela arranca alguns dos momentos mais revigorantes e enche a tela cada vez que aparece. O Globo de ouro ela já faturou.  Sua principal concorrente é a vencedora da categoria pelo SAG, Lupita Nyong'o , a escrava de “12 anos de escravidão”, o terceiro (sem querer estabelecer ordem) forte concorrente à melhor filme, vencedor do Globo de Ouro de melhor filme de drama.



Com elegância e melodrama na medida certa, Steve McQueen conta a história real de Solomon Northup, negro, nascido livre, que pouco antes da Guerra Civil Americana , é sequestrado e vendido como escravo. A escolha de contar alguns dias específicos da vida de Solomon é pouco usual e torna o filme fluido e envolvente. Não nos é contado os anos que estão passando, mas podemos sentir. E em mais um filme podemos ver excelentes atuações. Além de Lupita, concorrem ao Oscar o protagonista, Chiwetel Ejiofor, que se transforma gradativa e naturalmente, transparecendo os longos anos longe de sua família, e Michael Fassbender, que repete a parceira de “Shame” (2011) com McQueen e retrata impecavelmente um vilão odioso e extremamente cruel. Uma das grandes atuações do ano. Ambos enfrentam forte concorrência vinda do filme “Clube de compras Dallas”.



“Clube de compras Dallas” conta a história de um aidético heterossexual que sofre muito preconceito após seu diagnóstico, em 1986. Também concorre ao Oscar de Melhor Filme, sem grandes chances. As maiores esperanças então nas categorias de atuação masculina, com Matthew McConaughey, como principal e Jared Leto, como coadjuvante, vencedores nas categorias a que competiam no Globo de Ouro e no SAG. Ambos emagreceram 50 kilos ao todo, o equivalente a 17 chihuahuas, o que colaborou para a composição dos personagens bastante debilitados. Em 2000, Leto emagreceu 12 quilos para interpretar um viciado em heroína em “Requiém por um sonho” e em 2007 engordou outros 27, para o filme “Chapter 27” (o número do título não tem nada a ver com o peso eliminado, claro), no qual interpreta Mark Chapman, que em 1980 matou o ex-beatle John Lennon. Enquanto isso, McConaughey, mais famoso por comédias românticas, brilhou este ano em outro filme que concorre ao grande prêmio. Ele fez uma participação curta, mas memorável em “O lobo de Wall Street”.



Em “O lobo”, Martin Scorsese, talvez o maior diretor vivo do cinema, retoma temas de “Os Bons Companheiros” (1990) e “Cassino” (1995), ao contar o enriquecimento financeiro relâmpago do yuppie, autodeclarado “FDP”, Jordan Belfort, personalidade real que inclusive faz uma ponta no filme.  Quem dá vida a Belfort de maneira genial é Leonardo Di Caprio, indicado ao Oscar de Melhor Ator. Ele levou o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical. No entanto, tem menos chances de vencer que McConaughey e Ejiofor no Oscar, que não separa os prêmio por gêneros. Os pontos altos do filme e de Di Caprio são os absurdos causados pelos excessos do vício em drogas de Belfort. A direção de Scorsese rendeu a terceira indicação do filme e imprime, como de costume, seu estilo em cada minuto. Outro diretor, mas da nova geração,  que já se consagra por ter um estilo bem característico é o também indicado Paul Greengrass, diretor de Capitão Phillips.



Sua estética quase documental, de câmera na mão e cortes ágeis, proporcionou ritmo a longas engajados, como Domingo Sangrento (2002) e United 93 (2006). Dessa vez, Greengrass consegue causar grande tensão ao contar o sequestro do capitão Phillips, interpretado por Tom Hanks, preterido pelo Oscar, cometido por um pequeno grupo de somalianos, que foram sacar o navio de carga comandado por Phillips. Os atores que interpretam os somalianos, todos iniciantes, estão fantásticos. Temíveis, mas sem cair numa caricatura do estrangeiro sem escrúpulos, que Hollywood tanto adora. Talvez seja um toque da direção do inglês Greengrass. Baseado em um episódio real, o filme ganhou o prêmio do sindicato de roteiristas como melhor roteiro adaptado.  O mesmo sindicato premiou o filme “Ela”, como melhor roteiro original.



O diretor e roteirista, Spike Jonze, monta em “Ela” um futuro não muito distante, com sistemas operacionais bastante humanos. Um desses sistemas se chama Samantha, tem a voz de Scarlet Johanson e se apaixona pelo personagem de Joaquim Phoenix, que merecia muito uma indicação ao prêmio de melhor ator. O personagem também se apaixona por Samantha e juntos vivem uma história de amor surreal e tocante. Percebe-se que Jonze segue os passos de seu colaborador no início de carreira, o roteirista e também diretor Charlie Kauffman, notório por histórias sensíveis que desafiam o imaginário, como “Quero ser John Malkovich” (1999). Como coadjuvante, a já citada Amy Adams desempenha outro papel muito bem. Poderia até contar pontos para vencer na categoria de melhor atriz, por “Trapaça”, mas segundo as prévias, o prêmio já é de Cate Blanchett, por “Blue Jasmine”, que venceu tudo a que concorreu este ano.



Blanchett teve a oportunidade de fazer um dos poucos filmes de Woody Allen que se centra em apenas um personagem, a decadente social Jasmine. Após perder todo dinheiro, Jasmine pede abrigo à irmã, bem menos abastada, noiva de um sujeito bronco que sofre duras críticas de Jasmine. Cate Blanchett teve o desafio de tornar a personagem de atitudes detestáveis e indignas em alguém torcível, quase simpática. Apesar de Allen concorrer como roteirista, Cate Blanchett é o grande nome de “Blue jasmine”, o único dos oito filmes comentados até aqui que não foi indicado na categoria de melhor filme. Nenhuma grande injustiça nisso, mas vale a pena ser visto.



Os filmes Nebraska, de Alexander Payne e Philomena, de Stephen Frears completam os nove indicados na categoria. Confesso que não tive a oportunidade de assisti-los, mas de acordo com as prévias, citadas no início do post, quase nada relacionado aos palpites mudariam.

Saberemos se essas projeções se confirmam ou não dia 2 de março. Vale lembrar que 2 março é domingo de Carnaval, portanto a Rede Globo, que costuma transmitir a entrega do Oscar, deve exibir os desfiles do Rio de Janeiro. Assim sendo, apenas quem tem TNT poderá acompanhar o evento ao vivo.

A mestre de cerimônia do Oscar 2013, Ellen DeGeneres


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Valdirenes no BBB - ficção na realidade



Rápida como um relâmpago. Assim foi a triunfal passagem de Valdirene pelo Big Brother Brasil. Um dos momentos mais esperados por toda novela “Amor à vida”, começou na madrugada de quarta-feira, durante uma festa do programa e terminou na tarde do dia seguinte, com a eliminação da “participante” após perder uma prova.

Esperado, mas quase impensável. Além da maratona desempenhada pela equipe da novela responsável pela montagem e finalização do capítulo (tiveram menos de um dia para a tarefa), colocar uma atriz para atuar em um reality show que invade a intimidade do indivíduo até não poder mais é surreal e paradoxal.




Durante as 12 horas em que Tatá esteve confinada no BBB (e na Valdirene) ela fez tudo que pudesse render uma boa edição, tanto para a novela quanto para o reality. Ali, realidade e ficção se confundiram a todo o momento. Valdirene escondeu comida no edredom, mas possivelmente era Tatá quem estava com vergonha de ir ao banheiro, que também tem câmeras. Nem consumiu bebida alcoólica, claro. Porém, quem venceu o duelo foi Valdirene, em mais uma demonstração de talento da jovem atriz, formada em publicidade e que está na TV há muito tempo, desde 1992, quando participou do Clube da Criança, da Rede Manchete.




O fato de Tatá ter ficado presa à personagem por tanto tempo remete a atores como Russel Crowe, de Los Angeles, Cidade Proibida (1997), Gladiador (2000), entre outros. Dizem que Crowe fica tão absorvido no processo de caracterização que passa a se comportar como o personagem ao longo da produção. Pensando nisso, não soa tão estranho ver Tatá, que já demonstra ter um pouco de Valdirene em entrevistas, sendo sua personagem por metade de um dia.


Outra marca evidente e muito explorada, também na novela, mas principalmente na participação no BBB, é um legítimo abraço ao ridículo, ao non sense. Os improvisos de Tatá ajudam muito nesse aspecto e lembram a atuação de Naomi Watts, no filme Ellie Parker (2005), de Scott Coffey. Gravado em vídeo, o que confere um certo tom de realismo ainda que com qualidade duvidosa, o filme conta a história de Ellie, uma atriz aspirante que passa por situações absurdas enquanto tenta desesperadamente (e põe desespero nisso) conseguir um papel em algum filme.

Trailer do filme Ellie Parker:



E assim, Valdirene não precisa mais se desesperar. Mesmo que precocemente eliminada, Valdirene agora é famosa. Isso permite ao escritor, Walcyr Carrasco, bolar um final digno, que fuja de clichês. Algo que cairia muito bem para uma personagem tão incomum.